O poeta António Alves Martins nasceu em Viseu em 1897 e nessa cidade viria a falecer em 1929. Era sobrinho de célebre Bispo viseense do mesmo nome. Licenciou-se em Direito, em Lisboa, cidade em que exerceu a actividade jornalística no Diario de Lisboa. É autor dos seguintes livros: Anunciação (1921); Mulher de Bençam (1923); Fogueira Eterna (1926) e S. Francisco de Assis (1927). Deixou inédito A Lança de S. Miguel.
No dia 27 de Março de 1924, às 16:30h, no Salão da Liga Naval, em Lisboa, este jornalista e poeta proferiu uma conferência subordinada ao título “Teixeira de Pascoaes, o sentido profético do seu lirismo”.
A essa conferência, a que só tiveram acesso pessoas com convite, assistiram escritores, jornalistas, artistas e grande número de senhoras. Entre os presentes estavam Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão, António Sérgio, Câmara Reis e Pina de Morais. É bem provável que o poeta amarantino Teixeira de Pascoaes se encontrasse então em Lisboa mas não há notícia de que tenha assistido à conferência.
O texto lido por Alves Martins estruturava-se da seguinte forma:
- Poesia e Lirismo;
- A Escola de Coimbra, ou a junção da poesia com a filosofia;
A eclosão do lirismo de Pascoaes;
O livro Sempre;
A Natureza, a Alma, Deus;
Marános e Regresso ao Paraíso;
Elegias;
Conclusão.
Vários jornais se referiram à conferência, mas aqueles que deram mais que uma simples notícia foram o Diario de Noticias, A Patria e O Seculo.
Segundo os relatos da imprensa, Alves Martins começou por definir o que entendia por poesia e lirismo:
“Poesia quer dizer vibração – vibração de emoções e sentimentos, desde os de simples comoção aos da mais funda penetração interior. Eis porque a mais alta feição poética, a única mesmo, é a feição lírica, interpretando o lirismo como ele deve ser interpretado: um estado de alma emocional”.
Para o conferencista não existiam escolas de poesia:
“O que há é a arte de fazer versos, orientada para um sentido estético. Nos poetas portugueses predomina, não a estética, mas a emoção, a sensibilidade, o sentimento – um estado de alma emocional, criador supremo do lirismo”.
“Lirismo – continuou – não é sinónimo de simplicidade. Tão líricos são os versos cristalinos e simples de João de Deus, como os sonetos torturados e subjectivos de Antero de Quental. Bernardim Ribeiro, Rodrigues Lobo, Frei Agostinho (da Cruz), S. Francisco de Assis, António Nobre, Antero, Junqueiro e Teixeira de Pascoaes, representam dentro da poesia lírica as características mais variadas”.
Analisando a personalidade poética de Pascoaes, afirmou o orador:
“Teixeira de Pascoaes é, incontestavelmente, no lirismo português, uma alta figura representativa. É um «poeta-profeta» entendendo-se por esta designação todo aquele que penetra, afirmou Carlyle, o «mistério sagrado do Universo», seja o «segredo aberto de Goethe»”.
Quando surgem os primeiros versos de Pascoaes, segundo Alves Martins, o lirismo português continuava muito ligado às fórmulas românticas. Os nossos “versejadores” eram “uma espécie de discípulos de Soares de Passsos”. Pascoaes, porém, “fez da sua arte qualquer coisa de mais belo e de mais amplo. Escolhendo para fonte da sua inspiração a saudade – espiritualizou o Universo”. E é por isso que o panteísmo literário de Pascoaes é tão diferente do de Junqueiro:
“Ao panteísmo literário de Junqueiro, todo expressão verbal de ritmos e imagens, sucede, em Teixeira de Pascoaes, poeta como Junqueiro nunca foi, um panteísmo saudosista, pelo qual a vida se adivinha para além do mundo sensível – de onde resulta um lirismo optimista, crente da imortalidade, embora seus acentos vibrem num espaço movimentado de sombras – as trágicas sombras do seu mundo íntimo projectando, longe, sua divina claridade”.
A Natureza, a Alma, Deus, para Alves Martins, são as três grandes modalidades do verbo profético de Pascoaes, poeta que, com o Sempre, abriu novas veredas à poesia portuguesa. Pascoaes, afirma, “é essencialmente um lírico; mas isso não obsta a que a sua obra esteja, aqui e além, ressaibada de clarões de epopeia, e, por vezes, mesmo, de comentários irónicos”.
Analisando a obra do poeta de Amarante, Alves Martins refere-se deste modo ao livro As Sombras:
“A sombra do Passado, a sombra do Tâmega, a sombra do Luar, a sombra do Vento, a sombra do Homem, a sombra da Vida, todas as sombras do Mundo, são como que fantasmas de Jesus, que depois de ressuscitado, voltasse de novo a humanizar-se, para morrer de novo sobre a cruz. Há nelas, no seu vasto coração misterioso, a lembrança dum luar perdido, e a esperança da sua nova comunhão”.
A concepção do lirismo de Pascoaes sobre as mulheres foi igualmente abordada pelo orador:
“Pascoaes é um poeta impulsivo, vai na rajada da sua emoção, como as folhas e os ramos das árvores no vento.
O coração da mulher que ama, não palpita, apenas, no seu peito, mas abrange toda a terra, e ocupa todo o espaço.
A mulher é a grande reveladora do amor, e o amor, como a dor, sua irmã, o grande laço que o prende”.
Depois de analisar outros livros do poeta amarantino, dos quais leu vários trechos, concluiu que através da obra literária de Pascoaes se cria um corpo de doutrina, “o panteísmo saudosista”. Terminou com as seguintes palavras:
“Pascoaes, como Camões, Frei Agostinho da Cruz e Antero de Quental, é uma figura representativa.
O poeta, que não pode abrir os olhos sem abrir o «seu coração à dor ou à alegria» realizando assim, mas com mais sentido espiritual, o casamento da alma humana com o mundo é, no lirismo português, um mundo subjectivo de sentimentos eternos, em face do eterno mistério da Esfinge.
Lê-lo é pôr em acorde a nossa alma com a alma de todas as coisas do mundo.
Se Camões foi a complexidade amorosa, Frei Agostinho a divina saudade e Antero de Quental a inteligência sofredora, Pascoaes é a sensibilidade emotiva, a impressionabilidade metafísica,
Criando um novo céu além do céu;
Criando um novo mundo além do mundo”.
No final da conferência, pela qual foi muito felicitado e aplaudido, Alves Martins foi convidado a repeti-la na semana seguinte, em Coimbra, no Centro Académico. Na pesquisa feita na imprensa de Coimbra, Lisboa e Porto não se encontrou qualquer notícia sobre a sua realização. Cerca de três semanas mais tarde, no dia 22 de Abril, às 21 horas, Alves Martins, a convite da Renascença Portuguesa, iria repeti-la no Salão Nobre do jornal O Primeiro de Janeiro. Contrariamente ao que havia sucedido em Lisboa, no Porto a entrada foi franqueada a todos quantos a ela quiseram assistir.
António José Queirós