a nossa escola











O jornalista e poeta António Alves Martins (1897-1929), proferiu em 27 de Março de 1924 no salão da Liga Naval, em Lisboa, uma conferência intitulada “Teixeira de Pascoaes e o sentido profético do seu lirismo”. Essa conferência, por iniciativa da “Renascença Portuguesa”, repetir-se-ia no Porto, no salão nobre do jornal O Primeiro de Janeiro, às 21 horas do dia 22 de Abril de 1924.
Alves Martins, segundo o Diário de Lisboa de 16 de Abril, seguira para o Porto acompanhado de Teixeira de Pascoaes, mas sabe-se que prolongou a sua viagem até Amarante e só depois regressaria ao Porto para proferir a referida conferência.
Da sua breve estadia no Porto e em Amarante, deixou-nos António Alves Martins dois pequenos apontamentos que viriam a ser publicados na edição do Diário de Lisboa de 25 de Abril de 1924, na habitual rubrica “Chá das cinco”.
No primeiro, sobre o Porto, não se afasta muito de outros olhares forasteiros que nas primeiras impressões confessam a aparente rudeza da cidade e das suas gentes, opinião que, de uma forma geral, não demoram a rectificar.
Não é mais generoso na apreciação que faz de Amarante, uma vila de que manifestamente não gostou, pese embora a beleza do Tâmega e a imagem tosca e comovente da Pietá a que os amarantinos chamam Nossa Senhora da Ponte.
A esses apontamentos chamou-lhes o jornalista-poeta “Notas de viagem”. Aqui se deixam aos leitores do blog A nossa escola.
António José Queirós

Notas de viagem

“Trago sempre um peso de granito sobre a alma quando vou ao Porto. Não é, pois, de estranhar que a sua população seja misantropa, desconfiada, cautelosa, continuamente fitando o escuro maciço dos edifícios, doirados, a custo, pelo sol.
Gosto, no entanto, do Porto. É uma cidade pitoresca, uma cidade com individualidade própria – uma cidade que tem orgulho do seu passado – quer ele seja o espectro romântico de Camilo ou a elegância granítica da Torre dos Clérigos ou, simplesmente, ruas fora, o aspecto rural encantador, das pontas infinitas dos seus bois…”

***

“Uma vila feia, banhada por um lindo rio: Amarante.
É curiosa a ponte sobre o Tâmega – a ponte de «Pobre Tolo», onde em quinta-feira santa vi passar Nosso Senhor Crucificado.
A um dos lados da ponte, a igreja do casamenteiro S. Gonçalo. Há, nesta igreja, uma imagem tosca de santa bizantina, aconchegando ao peito Jesus, não Jesus pequenino, não Jesus amarrado em sangue ao madeiro, mas Jesus homem, Jesus idoso, Jesus de grandes barbas compridas – que é dum simbolismo humano deveras enternecedor.
Tais não é certo que andamos ao colo durante a vida toda?
Amarante, onde não vi uma mulher bonita, pois a beleza fugiu toda para a paisagem que a cerca, tem vários cafés, como Lisboa. Entre eles, o café da Maricas, a Brasileira do Rossio de Amarante. É frequentado pela gente que trabalha: sapateiros, alfaiates, etc. A gente que se presume «chic» não o frequenta.
Teixeira de Pascoaes, quando desce à vila, passa neste café horas esquecidas. Porquê? É que a Maricas, dona do café, tem um coração magnânimo – como o de certas mulheres humildes de Camilo.
A tia Maricas, que vive apenas dos cafés que vende, é a mãe de todas as crianças abandonadas. Tem um rancho infinito, que veste, calça e sustenta.
Isto enternece o Poeta, que lhe paga, em dobrado, os cafés que bebe”.

António Alves Martins



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